Quarentena iluminada

Oi, @quarenteners

Entre um episódio de the circle e outro, que tal fazer um curso ao invés de passar raiva no twitter? #trocaopijama 

Atenção: Esse post não é uma cobrança calcada nas demandas da vida moderna que usam termos como “produtividade”, “ser foda” ou “milagre da manhã”. Muita gente está trabalhando mais nesse regime a distância, tendo que adaptar a rotina a uma realidade incerta, tateando o escuro em busca de respostas, tomando algumas decisões difíceis que pareçam se encaixar nesse novo momento. 

Adicione algumas doses de ansiedade, coloque como topping um presidente fascista e voilà, o seu frozen covid-19 está pronto para ser degustado em porções individuais feitas especificamente para você.

Entretanto, sabemos que no melhor dos cenários ainda vamos continuar um bom tempo em isolamento. Provavelmente, uma das poucas coisas boas que essa pandemia nos trouxe foi a luz na relevância do conhecimento científico, da investigação e da informação segura, verídica, séria, factual, efetiva, real, sincera, válida, confiável ou qualquer outro sinônimo de sua preferência. 

Portanto, procurei alguns cursos online sobre moda em uma perspectiva global, que pedem 3 horas por semana de dedicação. Se você tiver tempo e disposição (tudo bem estar cansado e se sentir esgotado, sejam felizes <3), corre aqui para o blog! Todos em inglês, infelizmente. Não consegui encontrar cursos em português sobre o assunto que tenham a chancela de instituições conhecidas e sejam gratuitos. Se vocês souberem de algum, comenta aqui pra gente 🙂

01. Understanding Fashion: From Business to Culture – Institut Français de la Mode

02. Fashion and Sustainability: Understanding Luxury Fashion in a Changing World – UAL/London College of Fashion

03. Fashion as Design – MoMA

04. Sustainable Fashion – Copenhagen Business School

De todos, já fiz o curso do MoMA e curti muito!

É isso, caros. Um beijo e lavem as mãos 🙂

Ocupação Zuzu

Zuzu Angel é uma figura corriqueira nos cursos de moda. Na Universidade Federal do Ceará, onde me formei, ela empresta o nome ao centro acadêmico. Sempre gostei da sonoridade dessas duas palavras lado a lado. A repetição das sílabas formando o apelido carinhoso – ou alcunha para os portugueses – é uma intimidade bem-vinda, é um borogodó brasileiro. Tatá, Fafá, Cacá, Zezé, Lili, Bibi, Didi, Juju, Lulu, Zuzu. O suave nome junto ao angelical sobrenome estrangeiro causa um certo magnetismo difícil de explicar. 

Em 2014 ocorreu a exposição chamada Ocupação Zuzu, produzida pelo Itaú Cultural. Com curadoria da própria filha, a jornalista Hildegard Angel, foram narrados diversos aspectos da vida de Zuzu: mulher, designer, empresária, mãe e militante. Felizmente, descobri que essa exposição se encontra em formato digital! Atualmente, muitas instituições fornecem esse tipo de conteúdo com o objetivo de quebrar as barreiras geográficas e temporais da atividade museológica. E, de fato, aqui estou eu seis anos depois vendo e revendo essa história que diz tanto sobre o Brasil. 

Zuleika Angel Jones nasceu em Minas Gerais e foi morar no Rio de Janeiro no fim da década de 1940. Com habilidades em costura desde criança, em 1957 começou uma produção artesanal de saias. Segundo Hildegard, ela vendeu todos os móveis antigos do quarto, comprou um sofá cama e inaugurou a Boutique Zuzu Saias, onde durante o dia funcionava como loja e à noite voltava a ser dormitório. Nos vídeos da exposição, Hildegard fala com muito orgulho da própria mãe. Ela diz como Zuzu sempre soube do seu próprio valor, e era muito feliz com o próprio trabalho, “bebendo dele como se fosse uma cachaça”. 

Zuzu

A exposição conta que o primeiro sucesso de Zuzu foram os tecidos de colchão. Como não tinha recursos para o início sólido da marca, usou a tal da criatividade. Quando foi as casas pernambucanas em busca de tecido, os mais acessíveis na época eram o brim e o tecido de forrar colchão. Esse último consistia em um padrão de passarinho com listras nas cores verde, azul e rosa mesclados com creme. Zuzu misturou o tecido de estrutura pesada com tiras de gorgurão para fazer as saias, e assim conseguiu lançar tendência em Ipanema.

Com o tempo, foi ganhando clientes e começou a trabalhar tanto o sob medida como o prêt-à-porter. Também fornecia um look da cabeça aos pés através de parcerias com as artesãs locais que tinham liberdade criativa. As sandálias eram enfeitadas com pedras e os colares feitos de sementes de feijão. Por ambicionar uma moda livre para uma mulher livre, com peças abolindo o uso do sutiã e em tecidos leves, foi contra a corrente dos costureiros da época que importavam a moda francesa como Dener, Clodovil, José Ronaldo, José Nunes e Guilherme Guimarães.

Aliás, a exposição conta como ser costureiro e costureira tinham conotações bem diferentes. Para o primeiro, o glamour associado ao couturier da moda francesa, para a segunda, o trabalho braçal e pesado. Com um conhecimento do que acontecia no exterior (principalmente nos Estados Unidos), Zuzu importou a denominação designer para a sua profissãoe, segundo a exposição, foi a primeira vez que um criador de moda no Brasil usou o termo para definir sua ocupação.

Segundo o historiador João Braga, a designer foi a precursora da brasilidade, com roupas inspiradas em referências visuais e culturais brasileiras. Ele explica que a desvalorização dos produtos nacionais que persistiu fortemente até a segunda metade do século XX pode ser entendida como reflexo da nossa herança colonial. Destaca-se o fato de a coroa portuguesa nunca ter possuído uma tradição de moda, importando os estilos da corte francesa, espanhola e inglesa; e também o decreto em 1785 de D. Maria I que proibiu a manufatura têxtil em solo brasileiro, permitindo-se apenas a produção de algodão de baixa qualidade para as roupas dos escravos. Assim, a noção “o que vem de fora é melhor” sempre foi muito forte na nossa história, sendo pouco tempo até então para uma mudança de mentalidade.

Além da capacidade criativa de Zuzu, é exibida a sua aptidão para os negócios que se transmutava no valor que dava desde os pequenos detalhes como embalagens e etiquetas até as estampas. Através de suas parcerias comerciais nos Estados Unidos vendeu suas coleções em Nova York e vestiu atrizes com Joan Crawford e Kim Novak. Mais uma vez, é possível notar como os passos da designer se confundem com o próprio nome: uma moda autenticamente brasileira representada por seu nome/apelido e o sobrenome em inglês que se faz presente nas estampas como símbolo da marca. É Brasil e é Nova York em uma mesma peça de roupa. Até mesmo algumas referências que eu considero muito nordestinas ao invés de brasileiras, como o cangaço, foram empregadas por Zuzu. Dessa forma, as roupas fugiam do que eu considero carinhosamente o “arquétipo da arara”, ou seja, uma visão caricata de Brasil. Sou apaixonada pelo estilo dos anos 1970, por essa quimera urbana da natureza. Elementos essencialmente românticos como as flores, os vestidos, as transparências e as rendas ficam incríveis quando passam por esse filtro caleidoscópico. Vendo a exposição deu vontade de pegar todas as fotos, passar na Casablanca mais próxima, ir à costureira e pedir um de cada (a amargura da pessoa que fez moda e sofreu nas disciplinas de costura).

Editorial Manchete

O último momento da exposição fala sobre o seu filho mais velho, Stuart Angel Jones, um estudante de economia da UFRJ e militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Em 1971, o período de maior repressão e consequentemente mais violento da ditadura brasileira, Stuart foi preso, torturado e brutalmente assassinado na base aérea do Galeão. Durante anos, Zuzu procurou o corpo do filho, lutando todos os dias para consegui-lo de volta, desafiando uma estrutura cruel de poder. Passou a usar uma faixa preta como forma de luto, acompanhando suas roupas de um cinto com cem crucifixos. 

Carta de Zuzu endereçada a Ernesto Geisel

A coleção International Dateline Collection III – Holiday and Resort foi apresentada na residência da cônsul do Brasil em Nova York, no mesmo ano do desaparecimento de Stuart. Foram desfiladas roupas de lazer, noite, vestidos de casamento, e, por último, vestidos de modelagem ampla como uma camisola, adornados de bordados coloridos com traços infantis. Os bordados representavam figuras ingênuas e violentas. Flores, pássaros, árvores se misturavam com uniformes, palhaços armados, aviões, jipes, navios, pássaros em gaiolas e grades de prisão. Hildergard diz que o bordado foi um canal para transmitir a história do irmão, uma narrativa de uma criança sendo massacrada por um tirano. Nas palavras da filha: “Contar a história de uma maneira terrível e singela”. Por sua militância ativa, Zuzu morreu em abril de 1976 por um acidente de carro encomendado no Rio de Janeiro. 

Muitos dos vídeos exibidos começam com a logo do governo federal na época (Dilmãe #pas) acompanhado do logo ministério da cultura. Dá até uma pontada na alma ver essa história acompanhada de um Brasil que está se esvaindo, tornando-se mais uma vez um lugar de preconceito, estupidez e violência. Talvez por ser vista como uma frivolidade feminina, a moda foi única ao conseguir ser um instrumento de denúncia. De maneira singela, Zuzu conseguiu apontar a crueldade sistemática do regime militar ao mesmo tempo que conta a história da dor de uma mãe ao perder um filho. 

A exposição pode ser conferida aqui. Não deixem de dar uma olhada 🙂

Todo mundo vestido igual?

O ano de 2019 foi intenso. Um ano que alcancei o meu tão sonhado título de mestre e também tomei coragem na cara de começar o roupa fixe. Entretanto, faltou tempo pra continuar por aqui. A energia de encadear um monte de palavras em uma certa ordem para conseguir fazer um texto foi toda usada para aquele documento chamado dissertação que provavelmente vai ter apenas quatro leitores chamados: eu mesma, minha orientadora, a arguente da banca e meu namorado #realidades. 

Dramas acadêmicos à parte, vamos lá. Ainda dá tempo reavivar o blog! o/

Desde 2017, quando me mudei para as terras lusitanas, comecei aquela busca pelo estilo pessoal. E tudo via redes sociais: comecei a seguir consultoras de estilo, perfis com dicas incríveis para o armário cápsula perfeito, pastas do pinterest para cada estação, marcas que eu me identificava, influencers menores e consequentemente mais espontâneas. Com o tempo, percebi que o meu feed começou a ser uma grande barra de rolagem com fotos de pessoas vestidas despretensiosamente iguais, que fazem despretensiosamente o mesmo trabalho, que comem despretensiosamente as mesmas coisas, que tem despretensiosamente o mesmo humor, e que eu – despretensiosamente, é claro – estava me tornando uma chata vivendo na bolha.

Nessa jornada sartorial, por que é tão difícil sair da curva? Aliás, existe uma curva? Ano passado, um vestido da zara na clássica estampa de poá ficou tão popular nas ruas que ganhou um perfil no instagram, o @hot4thespot. Com o sucesso do vestido e da própria página, existem relatos de mulheres que tingiram, cortaram ou adaptaram para que ele não parecesse tão mundano. Esse caso espelha como no fundo estamos em um eterno jogo entre o ser e o dever ser, entre obediência à normas silenciosas e a busca por subjetividade. Mostra que quando somos confrontados com essa homogeneidade de opções que pressupõe determinados comportamentos, a tendência (ironia ou não) é buscar o diferente, o novo. E aí recomeça todo o sistema de moda.

“Sei lá, o jeito que eu uso esse vestido é diferente”
Fonte: @hot4thespot

Uma vez o Pedro, meu namorado, disse que gostava muito do filme do Mad Max porque gostava de ver filmes sobre estilo e violência. Não sobre “estilização da violência”, mas filmes com pessoas com muito estilo e violentas. Ele acredita que a origem dos dois gestos (estilizar-se e ser violento) é a mesma: imputar sentido é uma violência porque dá um sentido e nega todos os outros. Portanto, o estilo é a imputação de sentido mais violenta de todas, e por isso é natural que no cinema pessoas extremamente violentas são extremamente estilosas. Não à toa, a etimologia de estilo vem do latim stilus, uma palavra usada para designar na antiguidade o nosso conhecido estilete. Assim, lembrei do personagem do Lunga em Bacurau, o cangaceiro andrógino interpretado pelo conterrâneo cearense Silvero Pereira. De tal modo, se o estilo é dar forma à uma força pungente, estamos nós utilizando todo o poder que o estilo tem de nos “armar”? 

Lunga em todo o seu poder

Em tempos de economia global e redes sociais, onde todos aparentam estar vestidos do mesmo jeito, seja em Fortaleza, Guimarães, Londres, São Paulo ou Nova York, parece impossível sair desse rolo compressor do consumo de moda que nos coloca embaixo de um denominador universalmente comum. Algumas vezes, parece que quando estamos saindo dessa lógica, apenas mergulhamos ainda mais fundo. No meio da busca de individualidade e aceitação, talvez ver a moda de forma mais lúdica, pessoal e divertida, procurando desviar – nem que seja minimamente – dos padrões de consumo atual, nos faça, no fim, encara-la com toda a força que ela possui. 

Beyoncé no Louvre: moda, música e política

O casal Beyoncé e Jay Z (ou The Carters) em junho de 2018 lançou o clipe APES**T, gravado dentro das galerias do Museu du Louvre em Paris, sendo visto mais de 147 milhões de vezes na plataforma Youtube. No começo desse ano o próprio museu confirmou que o clipe ajudou a elevar o número de visitante à cifra recorde de 10,2 milhões de pessoas em 2018.

No clipe podemos ver a celebração das obras mais icônicas como também uma forte declaração política. No quesito figurino, os músicos utilizam marcas de luxo como Versace, Burberry, Balmain e Stephanie Rolland dentro do Louvre ao mesmo tempo em que levantam debates sobre questões raciais e a afirmação do lugar da música negra dentro dos espaços legitimados como sendo de elite. De tal modo, as roupas aparecem como um instrumento na criação das narrativas e dos símbolos construídos e desconstruídos através da música.

Eu verdadeiramente amo ver como o clipe é um exemplo do resultado da junção destes dois polos distantes em sua concepção, a cultura pop e os museus, em que juntos conseguem recriar as dinâmicas sociais, culturais e econômicas em torno deles. 

O legado da herança colonial ainda pode ser observado dentro dos museus e galerias até hoje, seja em sua filosofia, seu acervo ou mesmo em sua edificação. As histórias tradicionais continuam a persistir no presente, onde as coleções ainda têm sido tipicamente dominadas pela cultura material das elites e uma visão altamente seletiva do passado. Portanto, ver artistas negros ressignificando todos estes signos tão enraizados e desafiando as tradições elitistas européias em um dos museus mais famosos do mundo é nada menos que brilhante.

O museu também faz um tour virtual com todas as obras que aparecem no clipe que você pode acessar aqui e o Meteoro fez um minidocumentário explorando os significados além da relação clipe x museu que você pode acessar aqui!

Mais um post sobre moda e museus! Espero que tenham curtido. 🙂

“Are clothes modern?”

Em 1944, o arquiteto Bernard Rudofsky apresenta nos espaços do MoMa em Nova York uma exposição, que mais tarde se torna um ensaio, intitulada com uma questão: “Are clothes modern?”. Essa semana a mesma pergunta pontuou o desfile da maison Dior no comando da designer Maria Grazia Chiuri.

Lá atrás, a exposição teve como objetivo entender as relações das pessoas com a roupa e o corpo no contemporâneo. Utilizando alguns artifícios como gráficos que mostram a quantidade de bolsos e botões no traje do homem da época, representações tridimensionais do corpo moldado pela roupa, simplificações do vestuário seja em sua modelagem ou construção, ele ambicionou considerar, compreender e destrinchar o que funcionava e o que precisava mudar junto com a modernidade. 

Algumas décadas mais tarde, em 2017, o museu apresentou outra exposição (a única sobre roupas e moda depois de Rudofsky) com o mesmo ponto de partida: “Items: Is Fashion Modern?”. Segundo a curadora, Paolla Antonelli, o grande trunfo da moda depois da arte foi o design. Assim, pensar a moda moderna não é apenas refletir sobre as roupas, mas em todo o sistema que estamos inseridos, procurando entender quais as necessidades e prioridades do mundo moderno, como esses itens são desenhados, manufaturados e distribuídos – oi sustentabilidade! E para isto, é imperativo considerar as relações multifacetadas da roupa com a funcionalidade, cultura, estética, política, economia, o meio ambiente e tecnologia. O que usamos? Por que usamos? Como é feito? Qual o significado? São alguns dos questionamentos que a exposição provoca nos visitantes.

No desfile da Dior, Maria Grazia Chiuri faz da casa literalmente uma roupa, e utiliza do artifício de sua própria posição como diretora criativa de uma casa de alta costura para dar a sua visão de modernidade na moda. Assim, quis provar a Rudofsky que as roupas podem ser modernas a partir do momento que liberta quem as usa. Ao explicar para a revista i-D o seu propósito, diz: “Eu queria ilustrar que nós podemos fazer qualquer forma e qualquer construção que não causem esforço. Eu não quero essa ideia de que você é supérflua ou funcional, mínima ou decorada. É possível encontrar um equilíbrio nas contradições”. 

Desta forma, com um pano de fundo com trabalhos da artista Penny Slinger, a designer delineia uma coleção sobretudo sobre o livre-arbítrio, feminismo e feminilidade, em que os opostos culturalmente determinados podem não ser tão opostos assim.  

A minha dissertação é sobre moda e museus, logo esse assunto vai aparecer com alguma frequência por aqui. Essas foram algumas das minhas impressões, espero que tenham gostado, peeps! 🙂

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Oi, tudo bem?

Sou uma estudante de mestrado em comunicação de moda, brasileira morando em Portugal. E esse é o meu primeiro post no meu primeiro blog da vida!

Percebi com o tempo que escrever é exercício. E esse blog não vai ser diferente: um exercício de alinhar as palavras na cabeça sobre assuntos que eu gosto e me interesso na moda. Um exercício de pensar e produzir, refletir e manifestar, observar e materializar, aprender e fazer.

Espero que gostem, beijos de luz no coração ❤

(e obrigada pelo apoio neste post número 0)

Carla